Sombra de D. Juan
Álvares de Azevedo (?–1852)
O começo
Cerraste enfim as pálpebras sombrias!… / E a fronte esverdeou da morte à sombra, / Como lâmpada exausta! / E agora?… no silêncio do sepulcro / Sonhas o amor… os seios de alabastro / Das lânguidas amantes?
E Haidéia, a virgem, pela praia errando, / Aos murmúrios do mar que lhe suspira / Com incógnito desejo / Te sussurra delícias vaporosas… / E o formosoestrangeiro adormecido / Entrebeija tremendo?
Ou a pálida fronte libertina / Relembra a tez, o talhe voluptuoso / Da oriental seminua? / Ou o vento da noite em teus cabelos / Sussurra e lembra do passado as nódoas / No túmulo sem letras?
Ergue-te, libertino! eu não te acordo / Para que a orgia te avermelhe a face / Que a morte amarelou… / Nem para jogo e noites delirantes, / E do ouro a febre e da perdida os lábios / E a convulsão noturna!
Não, ó belo Espanhol! Venho sentar-me / À borda do teu leito, porque a febre / Minha insônia devora… / Porque não durmo quando o sonho passa
Texto do Wikisource em português, que só hospeda obra livre: domínio público ou licença livre (CC BY-SA 3.0). A ficha aponta de volta para a página de origem, que é a atribuição que a licença pede.