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Asco e Dor

Cruz e Sousa (?–1898)

Poesia7 min de leitura6 páginas

O começo

Últimos risos palermas, últimos escancaramentos de bocas parvas nos fins destroçados de um carnaval, por tarde ardente e nevoenta. Massas de nuvens torvas tumultuam no firmamento, sob múltiplas conformações fabulosas. Raios derradeiros de sol em poente languescem do alto, mornamente crepusculares.

Um tédio enorme espreguiça, estremunha no ar, lânguido, letárgico, invencível, indefinível…

Por uma rua estreita, sombria e lôbrega como um prolongado corredor de convento ou uma infecta galeria subterrânea, vem desfilando, aos pinchos, saracoteando toda, desconjuntando-se toda, uma turba miserável de carnavalescos, impondo aos últimos raios tristes do sol as suas carantonhas mais horrivelmente tristes ainda, as suas vestimentas funambulescas, fazendo lembrar diferentes aspectos de loucura, graus de imbecil demência, angulosidades de crime, estados primitivos de ignorância amassados numa embriaguez mórbida, selvagem e sinistra.

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