Livros › Cruz e Sousa › Ritmos da Noite

Capa de Ritmos da Noite

Ritmos da Noite

Cruz e Sousa (?–1898)

Filosofia3 min de leitura2 páginas

O começo

Lá fora a noite é estrelada e quente.

Chego da rua. A vida ferve ainda nos cafés com intensidade. No Londres, uns imbecis doirados de popularidade fácil saudaram-me, e, nessa saudação, senti o ar episcopal das proteções baratas que os conselheiros costumam dar aos jovens esperançosos.

Eu percebi o conselherismo e tive uma careta, uma grimace diabólica de ironia…

Oh! Oh! infinitamente incomparáveis os caríssimos imbecis doirados de popularidade fácil…

No meu quarto, entro, enfim, agitado, da rua, com mil ideias, com mil impressões e dúvidas e fundamente considero, tenho tão estranhos monólogos mentais, que quase que me alucinam.

A luz da vela, em torno à sombra do quarto, põe uma claridade velada, penumbrada, quase morta.

Um retrato de Daudet, pendurado à parede, parece ter para mim uma piedade no seu fino perfil de Cristo alemão.

Ah! por que será que na hora dos estrangulamentos supremos, quando a Dor nos alanceia e torna velhos, os objetos têm todos, para nós, uma feição singularmente diversa da que têm sempre - ou sinistra, ou agressiva, ou piedosa?

Texto do Wikisource em português, que só hospeda obra livre: domínio público ou licença livre (CC BY-SA 3.0). A ficha aponta de volta para a página de origem, que é a atribuição que a licença pede.

Mais de Cruz e Sousa