Primeiro Féretro - Ana
Cruz e Sousa (?–1898)
O começo
Alma de colegial que se fizesse, de repente, irmã de caridade. Ah! essa era, com efeito, irmã da minha vida e tinha caridade de mim. Fazia meditar num destes seres obscuros que morrem sem nunca ninguém lhes penetrar o segredo.
Ela mesmo morreu como uma tarde elisea vagueada de pássaros: —no outono da castidade, intacta natureza que o Nada devorou sem piedade, reclusa e triste, só, no ascetério da sua fé, penitente da carne, monja sem mancha.
Parece-me ainda vê-la no féretro, a fronte lívida, que os longos e meigos, fagueiros cabelos aureolavam. Era como se um cortejo de águias, em alas, a levasse pelo Azul, enquanto o seu alvo corpo em flor e gelado ia virginalmente, para sempre, dormindo…
Parece-me ver no seu olhar se refletir ainda, talvez do fundo claro da Eternidade, este pensamento cândido; ó inocente alegria da Infância, graça cor-de-rosa e ingênua dos tempos, para onde te exilaste? Eram olhos, os seus, onde vagava a harmonia cantante dos claros rios, e a frescura dessa ingênita bondade que floresce instintivamente e espontaneamente nas almas, como as estrelas no céu, apesar das tentações malignas, das apostasias do Bem, dos sacrilégios do Amor. Olhos onde havia bizarro e cintilante alvoroço alegre de mocidade, qualquer cousa de farfalhante ruflar dasas por entre festões de flores, sonoridades de cristais e luzes.
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