Diante do Mar
Cruz e Sousa (?–1898)
O começo
Para matar o letargo / Da vida, e o profundo tédio, / Fui, em busca de remédio, / Ao cais arejado e largo.
E vi o mar formidando, / Cheio de mastros e velas, / Ocultos clarins vibrando / Pela boca das procelas.
Vi tropéis e tropéis bruscos / De ondas revoltas e crespas / Com rijos ferrões de vespas / Ferreteando os ares fuscos.
Vi os límpidos navios / Jogados do mar incerto / Como seres erradios / Por inóspito deserto.
Vi tudo nublado, tudo, / Céus e mares e horizontes; / E sobre a linha dos montes / Cair o silêncio mudo.
E eu lembrei-me quando a aurora / Sobre aquelas esverdeadas / Águas jorrava sonora / A luz em puras golfadas.
Lembrei-me desses supremos / Dias acres de alegria / Na vaga loura e macia / As leves palmas dos remos.
Do resplendor das viagens / Num encanto matutino / A doçura das aragens, / Por sobre o mar cristalino.
A bicar as doces ilhas / De pedra, musgos e flores, / Cheias de ervas e frescores / E naturais maravilhas.
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