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Diante do Mar

Cruz e Sousa (?–1898)

Poesia2 min de leitura2 páginas

O começo

Para matar o letargo / Da vida, e o profundo tédio, / Fui, em busca de remédio, / Ao cais arejado e largo.

E vi o mar formidando, / Cheio de mastros e velas, / Ocultos clarins vibrando / Pela boca das procelas.

Vi tropéis e tropéis bruscos / De ondas revoltas e crespas / Com rijos ferrões de vespas / Ferreteando os ares fuscos.

Vi os límpidos navios / Jogados do mar incerto / Como seres erradios / Por inóspito deserto.

Vi tudo nublado, tudo, / Céus e mares e horizontes; / E sobre a linha dos montes / Cair o silêncio mudo.

E eu lembrei-me quando a aurora / Sobre aquelas esverdeadas / Águas jorrava sonora / A luz em puras golfadas.

Lembrei-me desses supremos / Dias acres de alegria / Na vaga loura e macia / As leves palmas dos remos.

Do resplendor das viagens / Num encanto matutino / A doçura das aragens, / Por sobre o mar cristalino.

A bicar as doces ilhas / De pedra, musgos e flores, / Cheias de ervas e frescores / E naturais maravilhas.

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