Arte (I)
Cruz e Sousa (?–1898)
O começo
Como eu vibro este verso, esgrimo e torço, / Tu, Artista sereno, esgrime e torce; / Emprega apenas um pequeno esforço / Mas sem que a Estrofe a pura ideia force.
Para que surja claramente o verso, / Livre organismo que palpita e vibra, / É mister um sistema altivo e terso / De nervos, sangue e músculos, e fibra.
Que o verso parta e gire — como a flecha / Que dalto do ar, aves, além, derruba; / E como os leões, ruja feroz na brecha / Da Estrofe, alvoroçando a cauda e a juba.
Para que tenhas toda a envergadura / De asa e o teu verso, de ampla cimitarra / Turca, apresente a lâmina segura, / Poeta, é mister, como os leões, ter garra.
Essa bravura atlética e leonina / Só podem ter artistas deslumbrado: / Que souberam sorver pela retina / A luz eterna dos glorificados.
Busca palavras límpidas e castas, / Novas e raras, de clarões radiosos, / Dentre as ondas mais pródigas, mais vastas / Dos sentimentos mais maravilhosos.
Texto do Wikisource em português, que só hospeda obra livre: domínio público ou licença livre (CC BY-SA 3.0). A ficha aponta de volta para a página de origem, que é a atribuição que a licença pede.