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Naufrágios

Cruz e Sousa (?–1898)

Poesia5 min de leitura5 páginas

O começo

O Mar! O mar! Quem nunca viajasse… / Quem nunca dentre dúvidas sentisse / O coração e ai, nunca embarcasse… / Oh! quem do mar as cóleras punisse!

Ora o mar e sereno, e calmo, e manso, / As vagas são melódicos arpejos / Dando à embarcação leve balanço, / Como um afago maternal de beijos.

Ora o mar franco, livre e transparente, / Tão tranquilo que está, tão brando, rindo, / Que até parece, que até cuida a gente / Que os corações podem boiar, dormindo.

Ora ferve, rebenta, estoura, estala, / Rude, feroz, em convulsões; profundo, / Abrindo a corpos pavorosa vala / E mundos de agonia num só mundo!

Filho! Filho! Adeus, querido, / Vou viajar para além, / Sejas de Deus protegido… / Que sempre me queiras bem.

Vou deixar-te nesta terra, / Entregue aos destinos teus; / Filho, o que este adeus encerra / Só o pode saber Deus.

Levo as crenças em pedaços, / Como pedaços de céus. / Vou ver mar, vou ver espaços / Ver temporais, escarcéus.

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