Litania dos Pobres
Cruz e Sousa (?–1898)
O começo
Os miseráveis, os rotos / São as flores dos esgotos.
São espectros implacáveis / Os rotos, os miseráveis.
São prantos negros de furnas / Caladas, mudas, soturnas.
São os grandes visionários / Dos abismos tumultuários.
As sombras das sombras mortas, / Cegos, a tatear nas portas.
Procurando o céu, aflitos / E varando o céu de gritos.
Faróis a noite apagados / Por ventos desesperados.
Inúteis, cansados braços / Pedindo amor aos Espaços.
Mãos inquietas, estendidas / Ao vão deserto das vidas.
Figuras que o Santo Ofício / Condena a feroz suplício.
Arcas soltas ao nevoento / Dilúvio do Esquecimento.
Perdidas na correnteza / Das culpas da Natureza.
Ó pobres! Soluços feitos / Dos pecados imperfeitos!
Arrancadas amarguras / Do fundo das sepulturas.
Imagens dos deletérios, / Imponderáveis mistérios.
Bandeiras rotas, sem nome, / Das barricadas da fome.
Bandeiras estraçalhadas / Das sangrentas barricadas.
Fantasmas vãos, sibilinos / Da caverna dos Destinos!
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