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Litania dos Pobres

Cruz e Sousa (?–1898)

Poesia2 min de leitura2 páginas

O começo

Os miseráveis, os rotos / São as flores dos esgotos.

São espectros implacáveis / Os rotos, os miseráveis.

São prantos negros de furnas / Caladas, mudas, soturnas.

São os grandes visionários / Dos abismos tumultuários.

As sombras das sombras mortas, / Cegos, a tatear nas portas.

Procurando o céu, aflitos / E varando o céu de gritos.

Faróis a noite apagados / Por ventos desesperados.

Inúteis, cansados braços / Pedindo amor aos Espaços.

Mãos inquietas, estendidas / Ao vão deserto das vidas.

Figuras que o Santo Ofício / Condena a feroz suplício.

Arcas soltas ao nevoento / Dilúvio do Esquecimento.

Perdidas na correnteza / Das culpas da Natureza.

Ó pobres! Soluços feitos / Dos pecados imperfeitos!

Arrancadas amarguras / Do fundo das sepulturas.

Imagens dos deletérios, / Imponderáveis mistérios.

Bandeiras rotas, sem nome, / Das barricadas da fome.

Bandeiras estraçalhadas / Das sangrentas barricadas.

Fantasmas vãos, sibilinos / Da caverna dos Destinos!

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