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Programa (Luís da Gama)

Luís da Gama

Poesia5 min de leitura4 páginas

O começo

Dos Deuses o Democrito medonho, / Filho da negra noite e horrível sonho, / Que de quanto no Olympo se fazia, / Com desprezo satírico se ria. / (Cand. Lusit.)

E' prologo, Senhores, não libelo, / O que mostrar-vos vem Polichinello; / E’ tema ou frontespicio de um volume, / Que será pouco a pouco dado a lume; / È’ obra de longada e resfolego , / E não de levadia, feita a prego : / Attentem todos, pois, sem exclamar, / Que os guizos agitando, eu vou falar. / Bem sei que muita gente apavonada, / Que os foros têm gozado de ilustrada,

Com rotunda prosapia, mal cabida, / Contando-se feliz, cá nesta vida, / Boceja indiferente—Que um programa / E’ cousa mui sediça e já sem fama; / Que os Lynces — Litteratos de luneta— / Argonautas de chelpa na gaveta, / Fidalgos mais que os Reis do mundo inteiro, / Áltivos, como galos de terreiro, / Exhibem, de improviso, os pensamentos, / Saltitantes, luzentes como tentos, / Lançados sobre a mesa do gamão, / De annoso Boticario fanfarrão; / E que, apenas pisando o chão da praça, / A’ luz do sol a-pino, sem fnmaça, / Ao som dos atabales dos Jornaes / Dos amigos—irmãos universais— / Do famoso congresso decantado / Do Elogio Mutuo conflado, / Recebem as pancarpias redolentes, / Com que zombam…

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