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Sganarelo

Cruz e Sousa (?–1898)

Poesia2 min de leitura2 páginas

O começo

Esse que eu agora rimo / É viscoso como a lesma / Pegajosa sobre o limo, / Sinistro como aventesma.

Feia coisa, enorme bicho, / Pavoroso mastodonte / Feito do horror a capricho, / Com cornos rijos na fronte.

Todo o ventre se lhe estufa / De obesidade lasciva, / Se fala a voz urra e bufa / Lembrando a locomotiva.

Na terrível carantonha / Retorcida, escalavrada, / Lhe estruge, às vezes medonha, / Formidável gargalhada.

E a luz do sol, que corusca, / Nas praças, à luz do dia, / A sua presença brusca, / Tem uma ardente ironia.

A língua rubra e convulsa / Sai-lhe da boca em espasmo, / Enquanto no olhar lhe pulsa / A blasfêmia do sarcasmo.

Capra figura profunda, / Atroz e amedrontadora, / Que larga entranha fecunda / Foi a tua geradora?!

Que aborto de ventre estranho / Pode gerar esse aborto / Assim feroz e tamanho, / Peludo, estroncado e torto?

De que idades tão antigas, / Pré-históricas vieste? / Mais hostil do que as urtigas, / Mais nefando de que a peste!

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