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No Leito (Casimiro de Abreu)

Casimiro de Abreu (?–1860)

Poesia4 min de leitura3 páginas

O começo

A M*** / Se eu morresse amanhã!

A. de Azevedo

I Eu sofro; - o corpo padece / E minh'alma se estremece / Ouvindo o dobrar dum sino! / Quem sabe? - A vida fenece / Como a lâmpada no templo / Ou como a nota dum hino!

A febre me queima a fronte / E dos túmulos a aragem / Roçou-me a pálida face; / Mas no delírio e na febre / Sempre teu rosto contemplo, / E serena a tua imagem. / Vela à minha cabeceira, / Rodeada de poesia, / Tão bela como no dia / Em que vi-te a vez primeira!

Teu riso a febre me acalma; / - Ergue-se viva a minh'alma / Sorvendo a vida em teus lábios / Como o saibo dos licores, / E na voz, que é toda amores, / Como um bálsamo bendito, / Ouvindo-a, eu pobre palpito, / Sou feliz e esqueço as dores.

II Se a morte colher-me em breve, / Pede ao vento que te leve / O meu suspiro final; / - Será queixoso e sentido, / Como da rola o gemido / Nas moitas do laranjal.

Quisera a vida mais longa / Se mais longa Deus m'a dera, / Porque é linda a primavera, / Porque é doce este arrebol, / Porque é linda a flor dos anos / Banhada da luz do sol! / Mas se Deus cortar-me os dias / No meio das melodias, / Dos sonhos da mocidade, / Minh'alma tranquila e pura / À beira da sepultura / Sorrirá à eternidade.

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