Canto de Amor (Casimiro de Abreu)
Casimiro de Abreu (?–1860)
O começo
I Eu vi-a e minha alma antes de vê-la / Sonhara-a linda como agora a vi; / Nos puros olhos e na face bela, / Dos meus sonhos a virgem conheci.
Era a mesma expressão, o mesmo rosto, / Os mesmos olhos só nadando em luz, / E uns doces longes, como dum desgosto. / Toldando a fronte que de amor seduz!
E seu talhe era o mesmo, esbelto, airoso / Como a palmeira que se ergue ao ar, / Como a tulipa ao pôr-do-sol saudoso, / Mole vergando à viração do mar.
Era a mesma visão que eu dantes via, / Quando a minha alma transbordava em fé; / E nesta eu creio como na outra eu cria, / Porque é a mesma visão, bem sei que é!
No silêncio da noite a virgem vinha / Soltas as tranças junto a mim dormir; / E era bela, meu Deus, assim sozinha / No seu sono dinfante inda a sorrir!…
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II Vi-a e não vi-a! Foi num só segundo, / Tal como a brisa ao perpassar na flor, / Mas nesse instante resumi um mundo / De sonhos de ouro e de encantado amor.
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