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Dores

Casimiro de Abreu (?–1860)

Poesia3 min de leitura2 páginas

O começo

Há dores fundas, agonias lentas, / Dramas pungentes que ninguém consola, / Ou suspeita sequer! / Mágoas maiores do que a dor dum dia, / Do que a morte bebida em taça morna / De lábios de mulher!

Doces falas de amor que o vento espalha. / Juras sentidas de constância eterna / Quebradas ao nascer; / Perfídia e olvido de passados beijos… / São dores essas que o tempo cicatriza / Dos anos no volver.

Se a donzela infiel nos rasga as folhas / Do livro dalma, magoado e triste / Suspira o coração; / Mas depois outros olhos nos cativam, / E loucos vamos em delírios novos / Arder noutra paixão.

Amor é ó rio claro das delícias / Que atravessa o deserto, a veiga, o prado, / E o mundo todo o tem! / Que importa ao viajor que a sede abrasa, / Que quer banhar-se nessas águas claras, / Ser aqui ou além?

A veia corre, a fonte não se estanca, / E as verdes margens não se crestam nunca / Na calma dos verões; / Ou quer na primavera, ou quer no inverno, / No doce anseio do bulir das ondas / Palpitam corações.

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