Livros › Casimiro de Abreu › Horas Tristes

Capa de Horas Tristes

Horas Tristes

Casimiro de Abreu (?–1860)

Poesia2 min de leitura2 páginas

O começo

Eu sinto que esta vida já me foge / Qual de harpa o som final, / E não tenho, como o náufrago nas ondas / Nas trevas um fanal!

Eu sofro e esta dor que me atormenta / É um suplício atroz! / E p'ra contá-la falta à lira cordas / E aos lábios meus a voz!

Às vezes no silêncio da minh'alma, / Da noite na mudez, / Eu crio na cabeça mil fantasmas / Que aniquilo outra vez!

Dói-me inda a boca que queimei sedento / Nas esponjas de fel, / E agora sinto no bulhar da mente / A torre de Babel!

Sou triste como o pai que as belas filhas / Viu lânguidas morrer, / E já não pousam no meu rosto pálido / Os risos do prazer!

E contudo, meu Deus! eu sou bem moço, / Devera só me rir, / E ter fé e ter crença nos amores, / Na glória e no porvir!

Eu devera folgar nesta natura / De flores e de luz, / E, mancebo, voltar-me p'r'o futuro / Estrela que seduz!

Agora em vez dos hinos desperança, / Dos cantos juvenis, / Tenho a sátira pungente, o riso amargo, / O canto que maldiz!

Texto do Wikisource em português, que só hospeda obra livre: domínio público ou licença livre (CC BY-SA 3.0). A ficha aponta de volta para a página de origem, que é a atribuição que a licença pede.

Mais de Casimiro de Abreu