Segredos
Casimiro de Abreu (?–1860)
O começo
Eu tenho uns amores - quem é que os não tinha / Nos tempos antigos? - Amar não faz mal; / As almas que sentem paixão como a minha / Que digam, que falem em regra geral. / - A flor dos meus sonhos é moça e bonita / Qual flor entreaberta do dia ao raiar, / Mas onde ela mora, que casa ela habita, / Não quero, não posso, não devo contar!
Seu rosto é formoso, seu talhe elegante, / Seus lábios de rosa, a fala é de mel, / As tranças compridas, qual livre bacante, / O pé de criança, cintura de anel; / - Os olhos rasgados são cor das safiras / Serenos e puros, azuis como o mar; / Se falam sinceros, se pregam mentiras, / Não quero, não posso, não devo contar!
Oh! ontem no baile com ela valsando / Senti as delícias dos anjos do céu! / Na dança ligeira qual silfo voando / Caiu-lhe do rosto seu cândido véu! / - Que noite e que baile! - Seu hálito virgem / Queimava-me as faces no louco valsar, / As falas sentidas que os olhos falavam / Não posso, não quero, não devo contar!
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