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Um Homem Dormindo...

Cruz e Sousa (?–1898)

Poesia6 min de leitura5 páginas

O começo

Les hommes endormis et les hommes morts ne sont que de vaines peintures.

SHAKESPEARE, Macbeth

Ei-lo, na noite, após as inclementes fadigas do dia, corpo estirado sobre o leito, gozando o repouso de algumas horas, mudo e imóvel dormindo…

O descanso, como um bem misericordioso, como um óleo consolador, unge-o voluptuosamente, enquanto a grande asa crepuscular da ave taciturna da Cisma faz-lhe uma sombra piedosa, grave e doce como uma bênção paterna, em torno do corpo cansado.

Na indiferença quase da morte, que o envolve todo de um vago esquecimento das cousas, deitado sobre o leito, como estirado sobre a terra, com a face mergulhada num meio luar galvânico de lividez, esse homem de ombros vigorosos e largos, de tórax poderoso, de estatura gigantesca, hércules fatigado e melancólico da Natureza, talvez o vencedor de batalhas formidáveis, parece, agora, tão pequeno, deitado!

De pé, há pouco no dia, caminhando, andando, girando no absurdo Contingente, sob as guerras armadas da Vida, como esse homem se projetava verdadeiramente grande, se compenetrava do valor do aço do seu peito, se iludia a si mesmo com os seus invejáveis músculos, com a sua forte andadura de animal de campanha — lesto, tenaz, reto, preciso e afouto nas distâncias e nas culminâncias a galgar!

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