Queixumes do Pastor Elmano contra a Falsidade da Pastora Urselina
O começo
Metido tenho a mão na Consciencia, / E não falo senão verdades puras, / Que me ensinou a viva experiencia.
CAMÕES. / Egloga
Seu manto desdobrava a Noite escura, / E a Rã no charco, o Lobo na espessura / Vociferando, os ares atroavão; / Do trabalho diurno já cessavão / Os rudes, vigorosos Camponezes: / O Vaqueiro, cantando atrás das Rezes, / Após as Cabras o Pastor cantando, / Hião para as Malhadas caminhando, / Tudo jazia em paz, menos o triste, / O desgraçado Elmano, a quem feriste,
Oh pernicioso Amor, cruel Deidade, / Flagélo da infeliz Humanidade: / Tudo, enfim, descansava, excepto Elmano, / Que a mão do Fado, universal Tyranno, / Sentia sobre si descarregada; / Que, longe da Paterna Choça amada, / Dependente vivia em Lar estranho, / Sendo os desgostos seus o seu rebanho. / Honrados Maioraes o Ser lhe deram / Lá junto ao Sado ameno, e lhe fizeram / Das Artes cortezãs prezar o estudo: / As Musas o encantárão mais que tudo, / Ateando-lhe nalma o Fogo santo, / Que estúpidos Mortaes desdenhão tanto. / Inflamado com ele, ao som da Lira / Quebrava dos Tufões a força, a ira, / E o venerando Téjo sossegado, / A cuja fresca praia o trouxe o Fado, / Mil vezes, para ouvir-lhe…
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