Epístola a Marília
O começo — II
Oh Deus, não opressor, não vingativo, / Não vibrando co’a destra o raio ardente / Contra o suave instinto, que nos deste; / Não carrancudo, ríspido arrojando / Sobre os mortais a rígida sentença, / A punição cruel, que excede o crime,
Até na opinião do cego escravo. / Que te adora, te incensa, e crê qu’és duro! / Monstros de vís paixões, damnados peitos / Regidos pelo sofrego interesse / (Alto, impassivo numen!) te atribuem / A cólera, a vingança, os vícios todos, / Negros enxames, que lhe fervem nalma! / Quer sanhudo ministro dos altares / Dourar o horror das barbaras cruezas, / Cobrir com véu compacto e venerando / A atroz satisfação de antigos ódios, / Que a mira põem no estrago da inocência, / Ou quer manter asperrimo domínio, / Que os vaivens da razão franquêa, e nutre: / Ei-lo, em santo furor todo abrasado, / Hirto o cabelo, os olhos cor de fogo, / A maldição na boca, o fel, a espuma, / Ei-lo, cheio de um Deus tão…
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