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Capa de Núbia

Núbia

Cruz e Sousa (?–1898)

Filosofia3 min de leitura3 páginas

O começo

Amar essa núbia - vê-la entre véus translúcidos e florentes grinaldas, Noiva exitante, ansiosa, trêmula, tê-la nos braços como num tálamo puro, por entre epitalâmios: sentir-lhe a chama dos beijos, boca contra boca, nervosamente - certo que é, para um sentimento d’Arte, amar espiritualmente e carnalmente amar.

Beleza prodigiosa de olhos como pérolas negras refulgindo no tenebroso cetim do rosto fino; lábios mádidos, tintos e solferinos; dentes de esmalte claro; busto delicado, airoso, talhado em relevo de bronze florentino, a Núbia lembra, esquisita e rara, esse lindo âmbar negro, azeviche da Islândia.

O seu sangue quente, aceso em púrpuras de luxúria, através da pele sombria e veludosa, recorda avermelhamentos de aurora dentre uma penumbra de noite, como o deslumbramento boreal das regiões polares…

No entanto, amar essa carne deliciosa de Núbia, ansiar por possuí-la, não constitui jamais sensação exótica, excentricidade, fetichismo, aspiração de um ideal abstruso e triste, gozo efêmero, afinal, das naturezas amorfas e doentias.

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