Ébrios e Cegos
Cruz e Sousa (?–1898)
O começo
Fim de tarde sombria. / Torvo e pressago todo o céu nevoento. / Densamente chovia. / Na estrada o lodo e pelo espaço o vento.
Monótonos gemidos / Do vento, mornos, lânguidos, sensíveis: / Plangentes ais perdidos / De solitários seres invisíveis…
Dois secretos mendigos / Vinham, bambos, os dois, de braço dado, / Como estranhos amigos / Que se houvessem nos tempos encontrado.
Parecia que a bruma / Crepuscular os envolvia, absortos / Numa visão, nalguma / Visão fatal de vivos ou de mortos.
E de ambos o andar lasso / Tinha talvez algum sonambulismo, / Como através do espaço / Duas sombras volteando num abismo.
Era tateante, vago / De ambos o andar, aquele andar tateante / De ondulação de lago, / Tardo, arrastado, trêmulo, oscilante.
E tardo, lento, tardo, / Mais tardo cada vez, mais vagaroso, / No torvo aspecto pardo / Da tarde, mais o andar era brumoso.
Bamboleando no lodo, / Como que juntos resvalando aéreos, / Todo o mistério, todo / Se desvendava desses dois mistérios:
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