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Hino à Solidão

António Feijó

Poesia2 min de leitura2 páginas

O começo

Vive ut vis, sed cum aegrotabis / Justis lachrymis damnabis / Omnes mundi insulas. / O beata solitudo, / O sola beatitudo, / Piis secessicolis!

Cornelius, Martyr.

Diz-se que a solidão torna a vida um deserto; / Mas quem sabe viver com a sua alma, nunca / Se encontra só; a Alma é um mundo, um mundo aberto / Cujo átrio, a nossos pés, de pétalas se junca.

Mundo vasto que mil existências povoam: / Imagens, concepções, formas do sentimento, / — Sonhos puros que nele em beleza revoam / E ficam a brilhar, soes do seu firmamento.

Dia a dia, hora a hora, o Pensamento lavra / Esse fecundo chão onde se esconde e medra / A semente que vai germinar na Palavra, / Cantar no Som, florir na Côr, sorrir na Pedra!

Basta que certa luz de seus raios aqueça / A semente que jaz na sua leiva escondida, / Para que ela, a sorrir, desabroche e floresça, / De perfumes enchendo as estradas da Vida.

Sei que embora essa luz nem para todos tenha / O mesmo brilho, o mesmo impulso criador, / Da Glória, sempre vã, todo o asceta desdenha, / Vivendo como um Deus no seu mundo interior.

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