Hino à Alegria
O começo
Tenho-a visto passar, cantando, à minha porta, / E às vezes, bruscamente, invadir o meu lar, / Sentar-se à minha mesa, e a sorrir, meia morta, / Deitar-se no meu leito e o meu sono embalar.
Tumultuosa, nos seus caprichos desenvoltos, / Quasi meiga, apesar do seu riso constante, / Dolhos a arder, lábios em flor, cabelos soltos, / A um tempo é cortesã, deusa ingenua ou bachante…
Quando ela passa, a luz dos seus olhos deslumbra; / Tem como o sol dinverno um brilho encantador; / Mas o brilho é fugaz,--cintila na penumbra, / Sem que dele irradie um facho criador.
Quando menos se espera, irrompe dimproviso; / Mas foge-nos também com uma presteza igual; / E dela apenas fica um pálido sorriso / Traduzindo o desdém de uma ilusão banal.
Onda mansa que só à superfície corre, / Toda a alegria é vã; só a Dor é fecunda! / A Dor é a Inspiração, louro que nunca morre, / Se em nós crava a raiz exhaustiva e profunda!
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