Hino à Morte
O começo
Tenho às vezes sentido o chocar dos teus ossos / E o vento da tua asa os meus lábios roçar; / Mas da tua presença o rasto de destroços / Nunca de susto fez meu coração parar.
Nunca, espanto ou receio, ao meu animo trouxe / Esse aspecto de horror com que tudo apavoras, / Nas tuas mãos erguendo a inexorável Fouce / E a ampulheta em que vais pulverizando as horas.
Sei que andas, como sombra, a seguir os meus passos, / Tão próxima de mim que te respiro o alento, / — Prestes como uma noiva a estreitar-me em teus braços, / E a arrastar-me contigo ao teu leito sangrento…
Que importa? Do teu seio a noite que amedronta, / Para mim não é mais que o refluxo da Vida, / Noite da noite, donde esplêndida desponta / A aurora espiritual da Terra Prometida.
A Alma volta à Luz; sai desse hiato de sombra, / Como o insecto da larva. A Morte que me aterra, / Essa que tanta vez o meu animo assombra, / Não és tu, com a paz do teu oásis de terra!
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