Morto
Cruz e Sousa (?–1898)
O começo
No féretro negro, por entre os círios langues, o grande, o doloroso Errante está serenamente morto.
Está morto, no féretro negro, para nunca mais ressurgir! aquele espírito doentio e torturado, aquele organismo triste, tenebroso, que trágicos pessimismos humanos fecundaram do ódio mais canceroso, gangrenado.
Ali está, gélido, rígido, alto, esquelético, com o fino aspecto delicado e singular de um magno aristocrata martirizado, inquisitoriado, a cujo fugitivo semblante duros cilícios deram a expressão lancinante de sacrifício ascético.
Não sei sob que sugestão de pesadelo ou de letargo fica o pensamento diante desse mortuário aparato, que o morto parece avultar aos meus olhos, ter a enformatura titânica, a grande e extraordinária corpulência de gigante rojado por terra, subjugado, vencido pela majestade suprema de urna dor avassaladora, imensa…
Do tom negro do féretro destacam, brusca e pavorosamente, os tons brancos, álgidos, crus, irritantes, dos gelos da Morte…
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