Livros › Cruz e Sousa › Morto

Capa de Morto

Morto

Cruz e Sousa (?–1898)

Poesia5 min de leitura4 páginas

O começo

No féretro negro, por entre os círios langues, o grande, o doloroso Errante está serenamente morto.

Está morto, no féretro negro, para nunca mais ressurgir! aquele espírito doentio e torturado, aquele organismo triste, tenebroso, que trágicos pessimismos humanos fecundaram do ódio mais canceroso, gangrenado.

Ali está, gélido, rígido, alto, esquelético, com o fino aspecto delicado e singular de um magno aristocrata martirizado, inquisitoriado, a cujo fugitivo semblante duros cilícios deram a expressão lancinante de sacrifício ascético.

Não sei sob que sugestão de pesadelo ou de letargo fica o pensamento diante desse mortuário aparato, que o morto parece avultar aos meus olhos, ter a enformatura titânica, a grande e extraordinária corpulência de gigante rojado por terra, subjugado, vencido pela majestade suprema de urna dor avassaladora, imensa…

Do tom negro do féretro destacam, brusca e pavorosamente, os tons brancos, álgidos, crus, irritantes, dos gelos da Morte…

Texto do Wikisource em português, que só hospeda obra livre: domínio público ou licença livre (CC BY-SA 3.0). A ficha aponta de volta para a página de origem, que é a atribuição que a licença pede.

Mais de Cruz e Sousa