Velho Vento
Cruz e Sousa (?–1898)
O começo
Velho vento vagabundo! / No teu rosnar sonolento / Leva ao longe este lamento, / Além do escárnio do mundo.
Tu que erras dos campanários / Nas grandes torres tristonhas / E és o fantasma que sonhas / Pelos bosques solitários.
Tu que vens lá de tão longe / Com o teu bordão das jornadas / Rezando pelas estradas / Sombrias rezas de monge.
Tu que soltas pesadelos / Nos campos e nas florestas / E fazes, por noites mestas, / Arrepiar os cabelos.
Tu que contas velhas lendas / Nas harpas da tempestade, / Viajas na Imensidade, / Caminhas todas as sendas.
Tu que sabes mil segredos, / Mistérios negros, atrozes / E formas as dúbias vozes / Dos soturnos arvoredos.
Que tornas o mar sanhudo, / Implacável, formidando, / As brutas trompas soprando / Sob um céu trevoso e mudo.
Que penetras velhas portas, / Atravessando por frinchas… / E sopras, zargunchas, guinchas / Nas ermas aldeias mortas.
Que ao luar, pelos engenhos, / Nos miseráveis casebres / Espalhas frios e febres / Com teus aspectos ferrenhos.
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