Meu Filho
Cruz e Sousa (?–1898)
O começo
Ah! quanto sentimento! ah! quanto sentimento! / Sob a guarda piedosa e muda das Esferas / Dorme, calmo, embalado pela voz do vento, / Frágil e pequenino e tenro como as heras.
Ao mesmo tempo suave e ao mesmo tempo estranho / O aspecto do meu fiIho assim meigo dormindo… / Vem dele tal frescura e tal sonho tamanho / Que eu nem mesmo já sei tudo que vou sentindo.
Minh’alma fica presa e se debate ansiosa, / Em vão soluça e clama, eternamente presa / No segredo fatal dessa flor caprichosa, / Do meu filho, a dormir, na paz da Natureza.
Minh’alma se debate e vai gemendo aflita / No fundo turbilhão de grandes ânsias mudas: / Que esse tão pobre ser, de ternura infinita, / Mais tarde irá tragar os venenos de Judas!
Dar-lhe eu beijos, apenas, dar-lhe, apenas, beijos, / Carinhos dar-lhe sempre, efêmeros, aéreos, / O que vale tudo isso para outros desejos, / O que vale tudo isso para outros mistérios?!
De sua doce mãe que em prantos o abençoa / Com o mais profundo amor, arcangelicamente, / De sua doce mãe, tão límpida, tão boa, / O que vale esse amor, todo esse amor veemente?!
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