Sabor
Cruz e Sousa (?–1898)
O começo
Os ingleses, fidalgo entendimento de artista, para significar - o melhor - dizem na sua nobre língua de prata: the best…
O que os ingleses chamam the best é finamente o que eu quero exprimir com a palavra — sabor — que, para a requintada espiritualidade, marca alto na Arte — filtrada, purificada pela exigência, pelo excentrismo da Arte.
Após a delícia frugal de um lunch de frutas silvestres e claros vinhos, numa colina engrinaldada de rosas, quando o sol sob nuvens aparece e desaparece, numa confortante meia-sombra de luz, não é apenas o gozo das frutas e dos vinhos que te fica saboreando no paladar.
O asseado aspecto do dia levemente frio, agulhante nas carnes, o ouro novo do sol em cima, a cor bizarra, correta do verde luxuoso, o gelo fresco e cristalino nas taças sonoras espumantes de líquidos vaporosos, e o viçoso encanto de formosas mulheres, indo em bocas de aurora e dentes de neve. — toda essa impressionante, alegre palheta de pintura à água, aflora num esplendor de gozo a que tu bem podes chamar o raro sabor das coisas.
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