Os Risonhos
Cruz e Sousa (?–1898)
O começo
Pastores e camponesas / De rudes almas esquivas / Passam entre as candidezas / Das estrelas fugitivas.
Parece que nada os punge, / Nada os punge e sobressalta. / A lua que os campos unge / No firmamento vai alta.
E eles passam sob a lua, / De queixas desafogados, / A cabeça livre e nua, / Na florescência dos prados.
Seres meigos e singelos, / Mulheres de lindo rosto, / Lábios cálidos e belos, / Do quente sabor do mosto.
Pastores de tez morena, / Queimados ao sol adusto: / Claridade bem serena / No fundo do olhar bem justo.
Neles tudo é riso e festa, / Neles tudo é festa e riso, / Frescuras brandas de giesta / E graças de Paraíso.
Simples, toscas e felizes, / Sem ter um laivo de mágoa: / Almas das verdes raízes, / Limpidez de gota dágua.
Neles tudo é paz de aldeia / E ri com os risos mais frescos… / O céu inteiro gorjeia / Idílios madrigalescos.
Seduzido por miragens / Caminha o bando risonho / Dessas virentes paragens, / Levado na asa de um sonho.
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