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Espiritualizada

Cruz e Sousa (?–1898)

Poesia3 min de leitura2 páginas

O começo

Agora fechando de leve os olhos, fechando-os, como para adormecimentos vagos, vejo-te, no entanto, melhor, sinto-te eterizada, de uma essência finíssima onde há diluidamente talvez muito do sol e muito da lua…

Assim, mudo e só, neste obscuro aposento, onde apenas uma janela alta dá para o claro dia, como um coração que abre e pulsa para a vida, gozo a divina graça de ficar isolado, intacto, neste momento, ao menos, dos atritos nauseantes da laureada banalidade, de certo fundo chato de plebeísmo intelectual de sentir.

Nos seis ou sete palmos deste aposento, que ainda não são, contudo, os sete palmos da cova, eu vejo-te das prefulgentes transcendências da minha Piedade, e, aristocratizando a alma, como um céu se requinta aristocraticamente destrelas, sinto que me apareces espiritualizada pelo grande Afeto que te fecundou e sinto que há de ti para mim uma tal influência estésica, uma identidade tamanha, uma tão intensa irradiação, que as nossas naturezas fundem-se num mesmo êxtase, num mesmo espasmo emotivo e numa mesma chamejação de beijos…

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