Lúcia (Castro Alves)
Castro Alves (?–1871)
O começo
Na formosa estação da primavera / Quando o mato se arreia mais festivo, / E o vento campesino bebe ardente / O agreste aroma da floresta virgem… / Eu e Lúcia, corríamos — crianças — / Na veiga, no pomar, na cachoeira, / Como um casal de colibris travessos / Nas laranjeiras que o Natal enflora.
Ela era a cria mais formosa e meiga / Que jamais, na Fazenda , vira o dia … / Morena, esbelta, airosa… eu me lembrava / Sempre da corça arisca dos silvados / Quando via-lhe os olhos negros, negros / Como as plumas noturnas da graúna , / Depois… quem mais mimosa e mais alegre?… / Sua boca era um pássaro escarlate / Onde cantava festival sorriso. / Os cabelos caíam-lhe anelados / Como doudos festões de parasitas… / E a graça… o modo… o coração tão meigo?l…
Ai! Pobre Lúcia… como tu sabias, / Festiva, encher de afagos a família, / Que te queria tanto e que te amava / Como se fosses filha e não cativa… / Tu eras a alegria da fazenda ; / Tua senhora ria-se, contente / Quando enlaçavas seus cabelos brancos / Co'as roxas maravilhas da campina. / E quando à noite todos se juntavam, / Aos reflexos doirados da candia , / Na grande sala em torno da fogueira, / Então, Lúcia, sorrindo eu murmurava: / "Meu Deus! um beija-flor fez-se criança… / Uma criança fez-se mariposa!"
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