Puff
Álvares de Azevedo (?–1852)
O começo
Criei para mim algumas ideias teóricas sobre o drama. Algum dia, se houver tempo e vagar, talvez as escreva e de a lume.
O meu protótipo seria alguma coisa entre o teatro inglês, o teatro espanhol e o teatro grego ― a força das paixões ardentes de Shakespeare, de Marlowe e Otway, a imaginação de Calderón de la Barca e Lope de Vega, e a simplicidade de Ésquilo e Eurípides ― alguma coisa como Goethe sonhou, e cujos elementos eu iria estudar numa parte dos dramas dele ― em Goetz de Berlichingen , Clavijo , Egmont , no episódio da Margarida do Fausto ― e a outra na simplicidade ática de sua Ifigênia . Estudálo-ia talvez em Schiller, nos dois dramas do Wallenstein, nos Salteadores , no D. Carlos : estudá-lo-ia ainda na Noiva de Messina , com seus coros, com sua tendência à regularidade.
É um tipo talvez novo, que não se parece com o misticismo do teatro de Werner, ou as tragédias teogônicas de Oehlenschläger e ainda menos com o de Kotzebue ou o de Victor Hugo e Dumas. Não se pareceria com o de Ducis, nem com aquela tradução bastarda, verdadeira castração do Otelo de Shakespeare, feita pelo poeta sublime do Chatterton, o conde Vigny. Quando não se tem alma adejante para emparelhar com o gênio vagabundo do autor de Hamlet, haja ao menos modéstia bastante para não querer emendá-la. Por isso o Otelo de Vigny é morto. É uma obra de talento, mas devia ser um rasgo de gênio.
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