Frêmitos
Cruz e Sousa (?–1898)
O começo
Ó pombas luminosas / Que passais neste mundo eternamente / Só a cantar os madrigais de rosas, / Atravessados de um luar veemente, / Inundados de estrelas e esplendores, / De carinhos, de bênçãos e de amores.
Ó virgens peregrinas, / De meigo olhar banhado de esperanças, / Que perfumais com lírios e boninas / A aurora de cristal das louras tranças, / Que atravessais constantemente a vida / Do sol eterno, da visão florida.
Amadas e felizes / Gêmeas da luz das frescas alvoradas, / Vós que trazeis nas almas as raízes / Do que é são, do que é puro — ó vós amadas / Prendas gentis do paternal tesouro, / Iriados corações de fluidos de ouro.
É para vós que eu quero / Engrinaldar de tropos e de rimas, / Num doce verso artístico e sincero, / Esgrimir com belíssimas esgrimas / A estrofe e dar-lhe os golpes mais seguros / Para que brilhe como uns astros puros.
É só a vós, apenas, / Que eu me dirijo, límpidas auroras, / Que pelas tardes plácidas, serenas, / Passais, galantes como ingênuas Floras, / Coroadas de flor de laranjeira, / Noivas, sorrindo à mocidade inteira.
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