Extrema Carícia...
Cruz e Sousa (?–1898)
O começo
O que ele, apenas, em realidade sentia naquela hora velada, além de uma esparsa e acerba saudade de tudo, era uma carícia infinita, verdadeiramente inexplicável, invadi-lo todo, difundir-se pelo seu ser como que em músicas e mornos tóxicos luminosos. Era uma dormência vaga, uma leve quebreira e letargia que o mergulhava num sono nebuloso, por entre irisações de brancura, num apaziguamento suave, como se ele estivesse acaso adormecido em cisternas de leite, ouvindo pássaros invisíveis cantar e sons sutilíssimos de harpas docemente, finamente fluindo…
Era um luar espasmódico, em delíquios, que nervosamente o aureolava, que lhe caía em neblinas de lírios mádidos nas origens mais recônditas da alma. Era um óleo paradisíaco que manso e manso o acalmava, o anestesiava. Uma extrema carícia, que fazia dilatarem-se-lhe todas as fibras, percorrendo-lhe pelo organismo, extasiantemente, numa onda de fluidos maravilhosos, de longos langores, de demorados gozos, de supremas quint'essências de sensibilidade.
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