O Sentimento Dum Ocidental
Cesário Verde (1855–1886)
O começo
Nas nossas ruas, ao anoitecer, / Há tal soturnidade, há tal melancolia, / Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia / Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.
O céu parece baixo e de neblina, / O gás extravasado enjoa-me, perturba; / E os edifícios, com as chaminés, e a turba / Toldam-se duma cor monótona e londrina.
Batem os carros de aluguer, ao fundo, / Levando à via-férrea os que se vão. Felizes! / Ocorrem-me em revista, exposições, países: / Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, no mundo!
Semelham-se a gaiolas, com viveiros, / As edificações somente emadeiradas: / Como morcegos, ao cair das badaladas, / Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros.
Voltam os calafates, aos magotes, / De jaquetão ao ombro, enfarruscados, secos; / Embrenho-me, a cismar, por boqueirões, por becos, / Ou erro pelos cais a que se atracam botes.
E evoco, então, as crônicas navais: / Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado! / Luta Camões no Sul, salvando um livro a nado! / Singram soberbas naus que eu não verei jamais!
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