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Flores Velhas

Cesário Verde (1855–1886)

Poesia3 min de leitura3 páginas

O começo

Fui ontem visitar o jardinzinho agreste, / Aonde tanta vez a lua nos beijou, / E em tudo vi sorrir o amor que tu me deste, / Soberba como um sol, serena como um voo.

Em tudo cintilava o límpido poema / Com ósculos rimado às luzes dos planetas: / A abelha inda zumbia em torno da alfazema; / E ondulava o matiz das leves borboletas.

Em tudo eu pude ver ainda a tua imagem, / A imagem que inspirava os castos madrigais; / E as vibrações, o rio, os astros, a paisagem, / Traziam-me à memória idílios imortais.

E nosso bom romance escrito num desterro, / Com beijos sem ruído em noites sem luar, / Fizeram-mo reler, mais tristes que um enterro, / Os goivos, a baunilha e as rosas-de-toucar.

Mas tu agora nunca, ah! Nunca mais te sentas / Nos bancos de tijolo em musgo atapetados, / E eu não te beijarei, às horas sonolentas, / Os dedos de marfim, polidos e delgados…

Eu, por não ter sabido amar os movimentos / Da estrofe mais ideal das harmonias mudas, / Eu sinto as decepções e os grandes desalentos / E tenho um riso meu como o sorrir de Judas.

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