Num Bairro Moderno
Cesário Verde (1855–1886)
O começo
Dez horas da manhã; os transparentes / Matizam uma casa apalaçada; / Pelos jardins estancam-se as nascentes, / E fere a vista, com brancuras quentes, / A larga rua macadamizada.
Rez-de-chaussée repousam sossegados, / Abriram-se, nalguns, as persianas, / E dum ou doutro, em quartos estucados, / Ou entre a rama do papéis pintados, / Reluzem, num almoço, as porcelanas.
Como é saudável ter o seu conchego, / E a sua vida fácil! Eu descia, / Sem muita pressa, para o meu emprego, / Aonde agora quase sempre chego / Com as tonturas duma apoplexia.
E rota, pequenina, azafamada, / Notei de costas uma rapariga, / Que no xadrez marmóreo duma escada, / Como um retalho da horta aglomerada / Pousara, ajoelhando, a sua giga.
E eu, apesar do sol, examinei-a. / Pôs-se de pé, ressoam-lhe os tamancos; / E abre-se-lhe o algodão azul da meia, / Se ela se curva, esguelhada, feia, / E pendurando os seus bracinhos brancos.
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