Cristalizações
Cesário Verde (1855–1886)
O começo
Faz frio. Mas, depois duns dias de aguaceiros, / Vibra uma imensa claridade crua. / De cócoras, em linha os calceteiros, / Com lentidão, terrosos e grosseiros, / Calçam de lado a lado a longa rua,
Como as elevações secaram do relento, / E o descoberto Sol abafa e cria! / A frialidade exige o movimento; / E as poças de água, como um chão vidrento, / Refletem a molhada casaria.
Em pé e perna, dando aos rins que a marcha agita, / Disseminadas, gritam as peixeiras; / Luzem, aquecem na manhã bonita, / Uns barracões de gente pobrezita / E uns quintalórios velhos com parreiras.
Não se ouvem aves; nem o choro duma nora! / Tomam por outra parte os viandantes; / E o ferro e a pedra - que união sonora! - / Retinem alto pelo espaço fora, / Com choques rijos, ásperos, cantantes.
Bom tempo. Os rapagões, morosos, duros, baços, / Cuja coluna nunca se endireita, / Partem penedos; cruzam-se estilhaços. / Pesam enormemente os grossos maços, / Com que outros batem a calçada feita.
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