Livros › Cesário Verde › Setentrional

Capa de Setentrional

Setentrional

Cesário Verde (1855–1886)

Poesia2 min de leitura2 páginas

O começo

Talvez já te não lembres, triste Helena, / Dos passeios que dávamos sozinhos, / À tardinha, naquela terra amena, / No tempo da colheita dos bons vinhos.

Talvez já te não lembres, pesarosa, / Da casinha caiada em que moramos, / Nem do adro da ermida silenciosa, / Onde nós tantas vezes conversamos.

Talvez já te esquecesses, ó bonina, / Que viveste no campo só comigo, / Que te osculei a boca purpurina, / E que fui o teu sol e o teu abrigo.

Que fugiste comigo da Babel, / Mulher como não há nem na Circássia, / Que bebemos, nós dois, do mesmo fel, / E regamos com prantos uma acácia.

Talvez já te não lembres com desgosto / Daquelas brancas noites de mistério, / Em que a Lua sorria no teu rosto / E nas lajes campais do cemitério.

Talvez já se apagassem as miragens / Do tempo em que eu vivia nos teus seios, / Quando as aves cantando entre as ramagens / O teu nome diziam nos gorjeios.

Quando, à brisa outoniça, como um manto, / Os teus cabelos de âmbar, desmanchados, / Se prendiam nas folhas dum acanto, / Ou nos bicos agrestes dos silvados.

Texto do Wikisource em português, que só hospeda obra livre: domínio público ou licença livre (CC BY-SA 3.0). A ficha aponta de volta para a página de origem, que é a atribuição que a licença pede.

Mais de Cesário Verde