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Contrariedades

Cesário Verde (1855–1886)

Poesia2 min de leitura2 páginas

O começo

Eu hoje estou cruel, frenético, exigente; / Nem posso tolerar os livros mais bizarros. / Incrível! Já fumei três maços de cigarros / Consecutivamente.

Dói-me a cabeça. Abafo uns desesperos mudos: / Tanta depravação nos usos, nos costumes! / Amo, insensatamente, os ácidos, os gumes / E os ângulos agudos.

Sentei-me à secretária. Ali defronte mora / Uma infeliz, sem peito, os dois pulmões doentes; / Sofre de faltas de ar, morreram-lhe os parentes / E engoma para fora.

Pobre esqueleto branco entre as nevadas roupas! / Tão lívida! O doutor deixou-a. Mortifica. / Lidando sempre! E deve a conta na botica! / Mal ganha para sopas…

O obstáculo estimula, torna-nos perversos; / Agora sinto-me eu cheio de raivas frias, / Por causa dum jornal me rejeitar, há dias, / Um folhetim de versos.

Que mau humor! Rasguei uma epopeia morta / No fundo da gaveta. O que produz o estudo? / Mais duma redação, das que elogiam tudo, / Me tem fechado a porta.

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