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Noite Fechada

Cesário Verde (1855–1886)

Poesia3 min de leitura2 páginas

O começo

Lembras-te tu do sábado passado, / Do passeio que demos, devagar, / Entre um saudoso gás amarelado / E as carícias leitosas do luar?

Bem me lembro das altas ruazinhas, / Que ambos nós percorremos de mãos dadas: / Às janelas palravam as vizinhas; / Tinham lívidas luzes as fachadas.

Não me esqueço das cousas que disseste, / Ante um pesado tempo com recortes; / E os cemitérios ricos, e o cipreste / Que vive de gorduras e de mortes!

Nós saíramos próximo ao sol-posto, / Mas seguíamos cheios de demoras; / Não me esqueceu ainda o meu desgosto / Nem o sino rachado que deu horas.

Tenho ainda gravado no sentido, / Porque tu caminhavas com prazer, / Cara rapada, gordo e presumido, / O padre que parou para te ver.

Como uma mitra a cúpula da igreja / Cobria parte do ventoso largo; / E essa boca viçosa de cereja / Torcia risos com sabor amargo.

A Lua dava trêmulas brancuras, / Eu ia cada vez mais magoado; / Vi um jardim com árvores escuras, / Como uma jaula todo gradeado!

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