Veio a Páscoa do Natal
Gregório de Matos (1636–1696)
O começo
1Veio a Páscoa do Natal, / primeira, e segunda oitava, / quando Araújo assentava, / uma festa garrafal: / mas a Cajaíba é tal, / este monte tão mesquinho, / que para um festim de alinho / veio Araújo famoso, / Paulinho com João Cardoso, / Carvalho, e Falcão Marinho.
2Só cinco em cinco rocins / foi visto, que em meu sentido / para o pasto andar corrido / poucos bastam, se são ruins: / mas não faltaram malsins, / entre os quais foi mui notado / este número apoucado: / e eu tive os homens por loucos, / pois bons são cavalos poucos / para o pasto andar folgado.
3O Araújo coitado, / para que nada lhe sobre, / andou sem freio, que ao pobre / sempre lhe falta o bocado: / mas por isso aventejado / andou à outra parelha, / mais que aos mais arnês brilhante, / que Araújo é rocinante, / que val muito pela ovelha.
4João Cardoso à mourisca / pela encolhida perneta, / tanto mais lustra a gineta, / quanto mais nela se arrisca: / e bem que de todos trisca, / porque com juízo, e brio / nunca paga de vazio / os altos, na refestela / pagou de vazio a sela / três vezes, ou quatro a fio.
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