Amanheceu Finalmente
Gregório de Matos (1636–1696)
O começo
1Amanheceu finalmente / o Domingo da jornada / co'a mais feia madrugada, / que viu nunca o Oriente: / bufava o Sul de valente, / de soberbo o mar roncava, / ninguém a briga apartava, / e eu perplexo, mudo, e quedo / entre valor, e entre medo / en salgo, y no salgo estava.
2Resolvi-me, e levantei-me, / posto que o quente da cama / com Gonçalo, e com sua ama / dizendo estava, comei-me: / vesti-me, e aderecei-me: / batem os pais de ganhar, / mandei-lhes abrir, e entrar, / estava a rede à parede, / e em pondo o vulto na rede, / comecei de caminhar.
3Cheguei a São Pedro, e em vão / busquei os mais companheiros, / que devendo ir os primeiros, / não tinham ido até então: / entrei na imaginação / de se acaso me enganassem, / e acaso as bestas faltassem, / que havia eu de fazer, / e foi fácil resolver, / que por bestas lá ficassem.
4Assim o cri, e era assim, / pois o pouco espaço andado / veio o Jardim esbofado / mais rosado, que um jardim: / não vem mais outro rocim? / lhe perguntei com desdém: / ele respondeu, não vem; / estive aguando os canteiros, / e não acho os companheiros, / pois não me cheira isto bem.
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