Dize-me, Maria Viegas
Gregório de Matos (1636–1696)
O começo
1Dize-me, Maria Viegas / qual é a causa, que te move, / a quereres, que te prove / todo o home, a quem te entregas? / jamais a ninguém te negas, / tendo um vaso vaganau, / e sobretudo tão mau, / que afirma toda a pessoa, / que o fornicou já, que enjoa, / por feder a bacalhau.
2Se tu sabes, o que é / o teu vaso furta-fogo, / como tens tal desafogo, / que te pespegas em pé? / dizem, para Marapé / fugira o triste Silveira / está tão correspondente / ao vaso, que juntamente / serra uma, e outra fronteira.
3Tu, me dizem, que fretaste / ao galante de antemão, / e que na tal ocasião / também foste, a que o chamaste: / o teu intento lograste: / mas podias advertir, / que não era bem dormir / (sendo tu ruim) com quem / te cataneasse bem, / como podes inferir.
4Vendo-se tão perseguido / o pobre do pecador, / não deixou de ir com temor / por ver, que tens vaso ardido: / e assim de pouco sofrido, / vendo-se quase atolado / se safou desesperado, / e diz, que tem grande mágoa, / que havendo nele tanta água, / sempre esteja emporcalhado.
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