Amanheceu Quarta-Feira
Gregório de Matos (1636–1696)
O começo
1Amanheceu quarta-feira / com face serena, airosa / o famoso André Barbosa / honra da nossa fileira; / por uma, e outra ladeira / desde a marinha até a praça / nos bateu com tanta graça, / que com razões admirandas / nos tirou dentre as holandas / para levar-nos à caça.
2O lindo Afonso Barbosa, / que dos nobres Francas é, / por Filho do dito André / rama ilustre, e generosa: / já da campanha frondosa / os matos mais escondidos / alvoroçava a latidos, / quando nós de mal armados / à vista dele assentados / nos vimos todos corridos.
3Rasgou um porco da serra, / e foi tal a confusão, / que em sua comparação / menino de mama é a guerra: / depois de correr a terra, / e de ter os cães cansados / com passos desalentados / à nossa estância vieram, / onde casos sucederam / jamais vistos, nem contados.
4Estava eu de uma grimpa / vendo a caça por extenso, / não a fez limpa Lourenço, / e só a porca a fez limpa: / porque como tudo alimpa / de cães, e toda a mais gente, / Lourenço intrepidamente / se pôs, e ao primeiro emborco / mão por mão aos pés do porco / veio a cair sujamente.
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