Coplas
Gregório de Matos (1636–1696)
O começo
Não sei, para que é nascer / neste Brasil empestado / um homem branco, e honrado / sem outra raça.
Terra tão grosseira, e crassa, / que a ninguém se tem respeito, / salvo quem mostra algum jeito / de ser Mulato.
Aqui o cão arranha o gato, / não por ser mais valentão, / mas porque sempre a um cão / outros acodem.
Os Brancos aqui não podem / mais que sofrer, e calar, / e se um negro vão matar, / chovem despesas.
Não lhe valem as defesas / do atrevimento de um cão, / porque acode a Relação / sempre faminta.
Logo a fazenda, e a quinta / vai com tudo o mais à praça, / onde se vende de graça, / ou fiado.
Que aguardas, homem honrado, / vendo tantas sem-razões, / que não vás para as nações / de Berberia,
Porque lá se te faria / com essa barbaridade / mais razão, e mais verdade, / que aqui fazem.
Porque esperas, que te engranzem, / e esgotem os cabedais, / os que tens por naturais, / sendo estrangeiros!
Ao cheiro dos teus dinheiros / vêm como cabedal tão fraco, / que tudo cabe num saco, / que anda às costas.
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