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Eu, que me Não Sei Calar

Gregório de Matos (1636–1696)

História2 min de leitura2 páginas

O começo

1Eu, que me não sei calar, / mas antes tenho por míngua, / não purgar-se qualquer língua / a risco de arrebentar: / vos quero, amigo, contar, / pois sois o meu secretário, / um sucesso extraordinário, / um caso tremendo, e atroz; / porém fique aqui entre nós.

2Do Confessor Jesuíta, / que ao ladrão do confessado / não só absolve o pecado, / mas os furtos lhe alcovita: / do Percursor da visita, / que na vanguarda marchando / vai pedindo, e vai tirando, / o demo há de ser algoz: / porém fique aqui entre nós.

3O ladronaço em rigor / não tem para que o dizer / furtos, que antes de os fazer, / já os sabe o confessor: / cala-os para ouvir melhor, / pois com ofício alternado / confessor, e confessado / ali se barbeiam sós: / porém fique aqui entre nós.

4Aqui o Ladrão consente / sem castigo, e com escusa, / pois do mesmo se lhe acusa / o confessor delinqüente: / ambos alternadamente / um a outro, e outro a um / o pecado, que é comum / confessa em comua voz: / porém fique aqui entre nós.

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