Filha Minha Isabel, Alma Ditosa
Gregório de Matos (1636–1696)
O começo
1Filha minha Isabel, alma ditosa, / Que do corpo as prisões desemparaste, / E qual cândida flor, ou fresca rosa / De teus anos a flor em flor cortaste: / De minha dor a mágoa saudosa, / Que por herança dalma me deixaste, / Deves crer, que até agora não durara, / Se a dar-te vida a minha dor bastara.
2Não durara até agora a minha mágoa, / Se fora ela bastante a dar-te vida, / Porque, vivendo tu, dos olhos a água / Se enxugara em dous rostos reprimida: / E sendo o peito humano a própria frágua, / Onde a dor em licores derretida / Corre a desafogar: se não correra, / Filha Isabel, de minha dor morrera.
3Morrera, Filha minha, e acabara / De um doce mal, formosa enfermidade: / Todo o poder do mundo me invejara, / Pois falta a seu poder esta verdade: / Com minha morte a vida se trocara, / Da maior, e mais alta majestade / Enjeitara tudo, porque nada era, / E porque a minha dor tudo excedera.
4Ficara tão ufano de seguir-te, / Vivo por te chorar, morto por ver-te, / Que se pudera crer, que por senir-te / A ocasião estimara de perder-te: / E se nesta estranheza de sentir-te / Não chegara um aplauso a merecer-te, / De uma a outra estranheza me passara, / Gêneros novos de sentir buscara.
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