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Tem Lourenço Boa a Taca

Gregório de Matos (1636–1696)

História3 min de leitura2 páginas

O começo

1Tem Lourenço boa a taca, / fomos tourear ao pasto, / e depois de tanto gasto / o tourinho era uma vaca / Lourenço na sombra opaca / de um pé de limões grosseiro, / eis a vaca pelo cheiro / deu com ele, e ele então / por não morrer na prisão / arrombou o Limoeiro.

2Tomou da praia o retorno, / porque o morrer melhor é / na reponta da maré / do que na ponta de um corno: / eu com notável sojorno / numa capoeira estava, / vendo, em que o caso parava, / e a vaca com seu focinho / me tratou como a ratinho; / pois qual gato me miava.

3Temi logo a malquerença / da vaca tão marralheira, / e o medo me deu em reira, / que é melhor do que em corrença: / rompi pela mata densa, / e dei com meu envoltório / de um vale no território, / tomando por meu sossego, / não las de Villa Diego, / mas as de Vila Gregório.

4Subi num monte comprido, / que do vale é Polifemo, / que quando uma vaca temo, / subo mais do que um valido: / vim à casa espavorido, / achei Lourenço pasmado, / mudo, e desassisado, / e eu disse: se escapo, vaya, / que quem fugiu pela praia, / força é que esteja areado.

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