Reverendo Padre em Cristo
Gregório de Matos (1636–1696)
O começo
1Reverendo Padre em Cristo, / Fr. Porraz por caridade, / Padre sem paternidade / salvo a tem pelo Anticristo: / não me direis, que foi isto, / que dizem, quando pregastes, / tão depressa vos pagastes, / que antes que o sermão findara / tanto cascalho embolsastes.
2Pregastes tanta parvoíce / de tolo, e de beberrão, / que o povo bárbaro então / entendeu, que era louquice: / quis-vos seguir a doudice, / e posto no mesmo andar, / em lugar de persignar / uma pedrada vos prega, / que a testa ainda arrenega / de tal modo de pregar.
3Aqui-d'EI-Rei me aturdistes, / e como um Paulo pregáveis, / entendi, quando gritáveis, / que do cavalo caístes: / vós logo me desmentistes, / dizendo, não tenho nada, / fingi aquela gritada, / porque entre tantos maraus / com seixos, limões, e paus / não viesse outra pedrada.
4Bem creio eu, Peralvilho, / que sois cavalo de Troia, / e fazeis uma tramóia / co'a morte no garrotilho: / mas se perdendo o codilho, / que ganhais a mão, dizeis, / a vós o engano fazeis, / porque se quem compra, e mente, / se diz, que na bolsa o sente, / vós na testa o sentireis.
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