Que Néscio, que Era Eu Então
Gregório de Matos (1636–1696)
O começo
1Que néscio, que era eu então, / quando o cuidava, o não era, / mas o tempo, a idade, a era / puderam mais que a razão: / fiei-me na discrição, / e perdi-me, em que me pés, / e agora dando ao través, / vim no cabo a entender, / que o tempo veio a fazer, / o que a razão nunca fez..
2O tempo me tem mostrado, / que por me não conformar / com o tempo, e co lugar / estou de todo arruinado: / na política de estado / nunca houve princípios certos, / e posto que homens espertos / alguns documentos deram, / tudo, o que nisto escreveram, / são contingentes acertos.
3Muitos por vias erradas / têm acertos mui perfeitos / muitos por meios direitos, / não dão sem erro as passadas: / cousas tão disparatadas / obra-as a sorte importuna, / que de indignos é coluna, / e se me há de ser preciso / lograr fortuna sem siso, / eu renuncio à fortuna.
4Para ter por mim bons fados / escuso discretos meios, / que há muitos burros sem freios, / e mui bem afortunados: / logo os que andam bem livrados, / não é própria diligência, / é o céu, e sua influência, / são forças do fado puras, / que põem mantidas figuras / do teatro da prudência.
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